terça-feira, 24 de abril de 2007

Olha nus o mundo/ quem sente

Das estradas e vielas
do norte este
vejo a sombra
iluminada
do rosto
que esvoaça
bocejos
de amor
do mundo
inteiro
espelhados
nu olhar
dele até
ao coração
e sentir
meu
em mim
bemol
mais
sustenido
imenso
e ainda
algumas
eternidades

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Poemário - Mariana da Cruz

Vídeo produzido por Mariana da Cruz no âmbito do estágio do Curso Tecnológico Multimédia - especificação Design Multimédia - (Escola Secundária Quinta do Marquês), a decorrer na CMO/Biblioteca Municipal em Oeiras.

Há uma hora, há uma hora certa

«Há uma hora, há uma hora certa
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para, o meio da rua.
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente gente! olhos, narinas, bocas,
gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas,
varinas, caixeiros desempregados,
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos
mictórios para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico, em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua. (...)»

Há uma hora, há uma hora certa, por Mário Cesariny

A Pastelaria

«Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter o dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente
ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra»

A Pastelaria, por Mário Cesariny

quinta-feira, 19 de abril de 2007

João Gil no Café com Letras

Ontem teve lugar mais uma sessão do Café com Letras, desta feita com João Gil.
A conversa decorreu fluída e surpreendente, deambulando pelo percurso pessoal, musical e poético do autor. João Gil revelou ser um conversador agradável, empenhado na sua vocação e forma de estar no mundo, sem tiques de vedetismo!
Falou da poesia como um discurso e uma vocação ancestral que revela o rigor e a musicalidade da língua. É por isso que, na sua opinião, quem trabalha e dá forma à musicalidade da linguagem e da poesia o tem de fazer com um imenso respeito e pudor pelo texto e pela língua.
Houve, ainda, lugar à estreia mundial de uma nova canção com letra de Ana Haterly.
João Gil foi, de facto, uma presença inesquecível. Por todos os motivos!

Veja mais fotos aqui.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Poemário - Edite Ferreira

Ilusão de óptica

Neste instante pictóricocrio uma dimensão azul
Neste infindável círculo cromáticopinto a ilusão do espírito
Neste eterno prisma solarpinto a luz da sombra


Azul

Azul,
o cosmos emoldurou-te com a aura do magnetismo que é o magnetizar da magnificência que é o magnetismo da magnitude de ser magno e mago.


Enigma

Presenteio-me no palco da poesia
atrás daquela cortina negra
timída, silenciosa.
Presenteio-me como um grito
Presenteio-me como a seda
Presenteio-me com um olhar
onde cabe o seu do próprio universo.

Edite Maria dos Santos Ferreira. Professora de Educação Visual e Tecnológica, Cruz Quebrada /Dafundo.

Poemário - Lenita Costa

«Vamos acabar com a Solidão

Vamos todos meus amigos
Vamos pró centro de dia
Vamos todos conviver
Com amor e alegria.

Mais vale o centro de dia
Que em casa sem companhia
Participamos nos trabalhos de lazer
E podemos todos conviver.

Trabalhos feitos pelas nossas mãos
O que nos dá grande prazer e alegria
Alegra-nos o coração
E combate a solidão.

Ser todos assim fizermos,
A tristeza vamos combater;
Ao contrário, só a nossa solidão
Por companhia iremos ter.

Sem ti solidão que seria
Da minha vida?
Ombro a ombro sempre andámos.

Eu te prometo minha amiga
Que, quando estiver de partida,
Te levarei comigo
Pró resto da minha vida.


A Canção do Mar

Ontem à meia-noite
estava um lindo luar,
quando cheguei à janela,
senti a brisa do mar,
e tive um forte desejo
de ir à beira-mar.

Sentei-me na arei a molhada,
longe de tudo e de todos.
Parecia um paraíso!
Olhando a Lua e o mar
e vendo o reflexo da Lua
batendo nas ondas do mar,
de repente, ouvi um lindo cantar.
Pensava que eram os anjos
e era uma sereia no mar.

Então cantava para mim,
Sozinha à beira-mar:
- Ó mar largo, ó mar largo,
ó mar largo sem ter fundo,
mais vale andar no mar largo
do que andar nas bocas do Mundo.

- Ó mar largo, ó mar largo,
ó mar largo sem ter fundo,
mais vale andar no mar largo
do que andar nas bocas do Mundo.

Olhando a Lua e o mar
vi uma linda sereia,
que parecia ser de cristal,
e então dizia para mim:

- Anda daí, minha amiga,
anda pró fundo do mar,
com peixinhos e corais,
só lá poderás descansar,
só lá poderás ter paz.


Amor de Avó

Os netos são para nós
Uma profunda saudade
Amo tanto os meus netos
E sinto por eles uma profunda saudade.

Gostaria de estar com eles todos os dias
Visto que não é possível
Então eu penso neles
Todos os dias.

Vós sois a coisa mais linda
Que eu tenho na minha vida
Gostaria que fizessem mais
Parte da minha vida.

Vivo sempre tão sozinha
Que morro de solidão
Alegram o coração
Desta avozinha
Que morre de solidão.

Vós sois os meus príncipes
É o príncipe Aragão
E a princesa Ana Rita
E eu sou a avó Rainha.

Mas aqui no meu palácio
Vivo sempre tão sozinha
Será que vale a pena
Eu ser a avó Rainha?»


Lenita Costa

Cesário Convida Pessoa



Ontem foram quase três horas de poesia. Maria do Céu Guerra leu e explicou Cesário Verde e Fernando Pessoa. Uma lição que ficará marcada em todos os que puderam assistir. A poesia esteve no centro das atenções e na voz de uma das maiores declamadoras da actualidade. Mais fotos do espectáculo aqui.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Maria do Céu Guerra na Biblioteca Municipal de Oeiras

Na Biblioteca Municipal de Oeiras está a decorrer o espectáculo "Cesário convida Pessoa" com Maria do Céu Guerra. As primeiras reacções, em directo, são muito boas. Uma verdadeira lição. Este já começou mas vêm aí mais espectáculos. De Quarta a Sábado.
Agora tenho de regressar à sala!

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Poemário - Amadeu C. Alves

« Mãe enternecida

Sempre alerta,
Pelo filho que dormia,
No momento que desperta,
Que belo sua mãe sorria.

Apertou-o junto ao peito,
Bem juntinho ao coração,
E disse com muito jeito,
Meu amor minha paixão.

Que quadro tão adorado,
Uma mãe enfeitiçada,
Pelo seu filho amado,
Mas que mãe abençoada.


A Amizade Pura

Amizade não tem cor,
E nem tão pouco se vende,
É um pouco de amor,
Também alguém que se entende.

Muitos temos de aprender,
Até a morte chegar,
Muito nos falta saber,
E a felicidade encontrar.

A amizade é importante,
Com a porta bem aberta,
Tem que ser pura e constante,
Para ser verdade certa.


O Sorriso

Um sorriso franco e leal,
Terno e fraternal,
Com expressão natural,
É pureza sem igual.

Esse sorriso discreto,
Tão meigo e tão natural,
Sorriso sincero e certo,
Não é um sorriso do mal.

Mas o sorriso maldoso,
O sorriso venenoso,
Nele só existe maldade.

Sorriso que infelizmente,
Que engana toda a gente,
Só é intriga e maldade.»

Amadeu C. Alves

Cesário Convida Pessoa

Leitura de poemas por Maria do Céu Guerra
dia 17 de Abril, 21h30 - Biblioteca Municipal de Oeiras

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Livro Mágico de Cesário Verde

Está disponível na sala de leitura da Biblioteca Municipal de Oeiras o livro mágico de Cesário Verde.

Com design de Patrícia Gouveia e tecnologia da Y-Dreams o livro mágico apresenta uma pequena biografia do poeta e uma selecção de poemas de Cesário Verde lidos com a voz inconfundível de Mário Viegas.

Integrado na BiblioFesta'07 esta é mais uma homenagem ao "poeta do quotidiano" que viveu em Linda-a-Pastora e que o Concelho de Oeiras adoptou como seu. Aguardamos a sua visita!

terça-feira, 10 de abril de 2007

Poemário - Rosa Maria Fernandes

O meu poema favorito

de «A Seguir o Deserto», Al Berto
Procuro-te Obsessivamente, excerto:

procuro-te obsessivamente na melancolia das mãos
porque só o acto de morrer muitas vezes compensa
e foi necessário que fizéssemos uma serra para cortar os pulsos
de uma espada e fizemos
e com uma cana-da-índia de rota fizemos uns foles para atear o fogo
pintei nos ombros umas asas de coral para me evadir
abandonei a casa e as notas rabiscadas rápidamente
as emendas as manchas de tinta azulada nos dedos
os manuscritos ilegíveis
a poeira dum olhar preso ao vício feliz das palavras
a escrita
a indelével respiração do poema
o fluxo do grito o eco lacustre dos dedos tamborilando no sono
a casa vazia
e a janela onde debrucei o que me restava da vida
levei dez dias de viagem
até que a noite me recebeu como um ressurgido do outro lado do corpo
e nada direi sobre o deserto
nem deixarei sequer um inédito


Rosa Fernandes, 36 anos, Funcionária da C.M.O.

Poemário - Sandra Roque

SAL

Rola dos meus olhos o sal silencioso da tua ausência.
E são minhas as horas vazias que deviam abraçar-te por noites de incerteza.
Reduzido o horizonte à pele que me contém,
nada além do marasmo, na existência que não é sem o teu riso…

Cessou meu sangue o movimento, por não ter onde ir.

Afogam-me as sombras e já o vento não sabe onde estou.
Nem sabe o arco-íris persistir se negras são todas as cores…
Negro é o tempo que parou aqui.

Agora que me esvaí, nem um mudo esboço de som.
Sal. Apenas e só… sal.


Sandra Roque, Actriz

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Curso Breve sobre Fernando Pessoa

No âmbito da BiblioFesta'07 vai decorrer nos dias 11,12, 16, 17 e 18 de Abril um curso breve sobre Fernando Pessoa orientado pelo Professor Doutor Fernando Martinho.
O curso decorre das 18 às 20 horas na Biblioteca Municipal de Oeiras.

Programa do curso:

1. Apresentação biobibliográfica de Fernando Pessoa.
2. Lugar de Fernando Pessoa no Modernismo, a nível nacional e internacional.
3. Uma questão central nos Estudos Pessoanos: a heteronímia e o seu significado.
4. Leitura e comentário de poemas de Fernando Pessoa e dos heterónimos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
5. O Livro do Desassossego de Bernardo Soares: sua importância no contexto da obra de Fernando Pessoa.
6. Leitura e comentário de alguns trechos.
7. Heranças de Fernando Pessoa na Poesia Portuguesa Contemporânea.
Inscrição obrigatória e limitada a 25 participantes.

Informações e inscrições:
Biblioteca Municipal de Oeiras (Sector de Adultos)
Telf. 21 440 63 40
E-mail:
referencia.bmo@cm-oeiras.pt

quinta-feira, 29 de março de 2007

Poemário - Teresa Jardim

Para o Professor e Poeta
Mário Matta e Silva


Um raio de sol aqueceu meus dias,
A luz imaculada dos teus versos,
Cintilam brocados de oiro dispersos.
Que pairam sob um mar de fantasias!

Desarmam essa crua poesia,
Esse vão infame intento,
De desmembrar o sentimento,
E dissecar a magia.

São versos de oiro e diamante!
Que como audaz caminhante
Como singelo profeta,

Põem a nu a verdade,
Que é a genialidade,
Do verdadeiro poeta!

Teresa Jardim, 35 anos

sexta-feira, 23 de março de 2007

A Árvore e a Poesia - João Pedro

Árvore,

minha amiga,
obrigado por tudo o que me dás,
o oxigénio,
a madeira,
és importante para nós!

E não é só isto,
também os frutos,
a tua sombra
faz-me bem no Verão!

Se te plantar,
não só me vais dar
coisas importantes,
como também vou criar um
amigo!

Os Homens matam-te,
mas eu gosto de ti!
Na Primavera és lindíssima
Com as tuas flores.
Árvore,
és indispensável ao nosso planeta!


João Pedro, 3º Ano
EB1 Conde de Ferreira

A Árvore e a Poesia - Constança

Uma árvore é um amigo,
que se pode semear,
com um pequeno e simples gesto,
para a floresta completar.

Ao regarmos uma árvore,
ela cresce lentamente,
ganha raízes, folhas…
e fica grande, finalmente!

Se passarmos numa árvore,
ouvimos os passarinhos
fazem um lindo musical,
cantando nos seus ninhos.

Uma árvore dá muitas coisas
o papel,
a madeira,
isso tudo, e muito mais,
e também dá muitas vezes,
abrigos aos animais!


Constança, 3º Ano
EB1 Conde de Ferreira

quinta-feira, 22 de março de 2007

Arte Poética

Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme nossa carne é essa morte
De cada noite que se chama sono.

Ver no dia ou no ano um símbolo
Dos dias do homem e dos seus anos,
Converter o ultraje dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, tal é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes pelas tardes uma cara
Nos olha desde o fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, não de prodígios.

Também é como rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.


Borges, Jorge Luís. O Fazedor. Lisboa: Difel, Difusão Editorial, Lda., 1984. p. 119 - 120

quarta-feira, 21 de março de 2007

HOJE | 21.30 | Parque dos Poetas

Estimados Leitores,

Tenho assistido aos ensaios que a Companhia de Actores está a fazer no Parque dos Poetas. Posso afirmar que este é um dos espectáculos mais belos, comoventes e surpreendentes, a que assisti na minha vida.

É um espectáculo único que foi concebido especialmente para celebrar o Dia Mundial da Poesia no Parque dos Poetas. Os actores apropriam-se dos espaços, das esculturas, dos percursos, das pedras, das árvores, para criarem um ambiente único em que a poesia ganha vida através dos seus corpos e da sua voz.

Nos dias que correm, em que as horas e os dias passam vorazmente deixando pouco tempo para nos encontrarmos com o mais íntimo de nós, é bom saber que a poesia ainda nos pode fazer sentir humanos. Este é O Espírito da Poesia.

Lanço-vos pois um desafio: venham esta noite ao Parque dos Poetas. Será uma noite inesquecível. Uma prova viva que o espírito prevalece sobre o corpo, sobre a nossa preguiça existencial.

Saudações poéticas
Filipe Leal

Entre no espírito da poesia



21 de Março . quarta-feira . 21.30h . Parque dos Poetas


O Espírito da Poesia, pela Companhia de Actores


Num ambiente intimista e de apelo ao espírito da poesia, venha testemunhar uma noite em que os poetas do Parque ganham vida e voz...



Da poesia


"A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro." (Novalis)